sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poema do menino Jesus - Fernando Pessoa

Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como


uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra.

Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez

menino, a correr e a rolar-se pela erva

A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a

ouvir-se de longe.

Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra

fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.

Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo

andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e

roubou três.

Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que

Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou

eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele

criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado

na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.

Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro

raio que apanhou.

Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança

bonita, de riso natural.

Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças

d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.

Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,

e foge a chorar e a gritar dos cães.

Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha

graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as

bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.

A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar

para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há

nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas

quando a gente as tem na mão e olha devagar para

elas.

Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo

que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois

com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no

degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS

e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo

e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair

no chão.

Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos

homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri

dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir

falar das guerras e dos comércios.

Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da

minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o

lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo

materno até Ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de

noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar,

põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,

sorrindo para os meus sonhos.

Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais

pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua

casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e

humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu

tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu

brincar.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Quando o amor vacila - Maria Bethânia

Eu sei que atrás deste universo de aparências,


das diferenças todas,

a esperança é preservada.



Nas xícaras sujas de ontem

o café de cada manhã é servido.

Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,

e dela não me conformo.



Eu acredito em tudo,

mas eu quero você agora.



Eu te amo pelas tuas faltas,

pelo teu corpo marcado,

pelas tuas cicatrizes,

pelas tuas loucuras todas, minha vida.



Eu amo as tuas mãos,

mesmo que por causa delas

eu não saiba o que fazer das minhas.



Amo teu jogo triste.



As tuas roupas sujas

é aqui em casa que eu lavo.



Eu amo a tua alegria.



Mesmo fora de si,

eu te amo pela tua essência.

Até pelo que você poderia ter sido,

se a maré das circunstâncias

não tivesse te banhado

nas águas do equívoco.



Eu te amo nas horas infernais

e na vida sem tempo, quando,

sozinha, bordo mais uma toalha

de fim de semana.



Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.



Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas

e pelos teus sonhos inúteis.



Amo teu sistema de vida e morte.



Eu te amo pelo que se repete

e que nunca é igual.



Eu te amo pelas tuas entradas,

saídas e bandeiras.



Eu te amo desde os teus pés

até o que te escapa.



Eu te amo de alma para alma.

E mais que as palavras,

ainda que seja através delas

que eu me defenda,

quando digo que te amo

mais que o silêncio dos momentos difíceis,

quando o próprio amor

vacila.

Eu quero ser possuída por você - Maria Bethânia

Eu quero ser possuída por você, pelo seu corpo,


pela sua proteção, pelo seu sangue.

Me ama!

Eu quero que você me ame e fique eternamente me amando dentro de mim.

Com sua carne e o seu amor.

Eternamente, infinitamente dentro de mim

me envolvendo, me decifrando, me consumindo, me revelando...

Como uma tarde dentro do elevador, no verão, voltando da praia

e você me abraçou e eu te abracei...

E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo,

Mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos...

A vida inteira resumida só no desejo da tua boca dizendo o meu nome,

Da tua mão conduzindo a minha mão,

Do teu corpo revelando o meu corpo,

Como se o mundo fosse pela primeira vez,

Você o meu ponto de referência nessa cidade...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

NATAL - Olavo Bilac

Jesus nasceu. Na abóbada infinita


Soam cânticos vivos de alegria;

E toda a vida universal palpita

Dentro daquela pobre estrebaria...



Não houve sedas, nem cetins, nem rendas

No berço humilde em que nasceu Jesus...

Mas os pobres trouxeram oferendas

Para quem tinha de morrer na cruz.



Sobre a palha, risonho, e iluminado

Pelo luar dos olhos de Maria,

Vede o Menino-Deus, que está cercado

Dos animais da pobre estrebaria.



Nasceu entre pompas reluzentes;

Na humildade e na paz deste lugar,

Assim que abriu os olhos inocentes

Foi para os pobres seu primeiro olhar.



No entanto, os reis da terra, pecadores,

Seguindo a estrela que ao presepe os guia,

Vem cobrir de perfumes e de flores

O chão daquela pobre estrebaria.



Sobem hinos de amor ao céu profundo;

Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!

Sobre esta palha está quem salva o mundo,

Quem ama os fracos, quem perdoa o mal,



Natal! Natal! Em toda a natureza

Há sorrisos e cantos, neste dia...

Salve Deus da humildade e da pobreza

Nascido numa pobre estrebaria.